Antes de entrar na sessão de um filme como “Anticristo”, é necessário saber quem é Lars Von Trier, e já ter assistido a algum de seus filmes anteriores também contribui bastante para a experiência. Aos 53 anos de idade, Von Trier já coleciona em sua filmografia algumas obras-primas do cinema contemporâneo. Apesar dos estilos variados, seus filmes sempre carregam um ponto em comum: a polêmica. Foi assim com “Dançando no Escuro”, quando Bjork jurou que jamais faria outro filme depois da experiência com o diretor. Foi com “Dogville” que Lars criou um verdadeiro épico em um palco de teatro, sem cenários e quase sem objetos em cena. Recentemente, com “O Grande Chefe”, utilizou recursos técnicos em que a própria câmera escolhia quase aleatoriamente os quadros que ia filmar. Por que em “Anticristo” ele faria diferente?
A premissa é simples, mas só aparentemente não traz nada de inovador. Um casal (Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg) perde um filho pequeno em um trágico acidente, e decide se mudar para uma cabana no meio de uma floresta isolada, como forma de o marido (psicoterapeuta) ajudar a mulher a sair da depressão, de dimunuirem o sentimento de culpa (foi durante uma relação sexual do casal que o filho sofreu o acidente), de auto-punição. A coisa fica mais interessante quando descobrimos que a tal floresta é o “Éden”, que, apesar do nome, está longe de ser o paraíso. Aqui a aproximação possível entre a perda do filho e o pecado original de Adão e Eva, que os fez perder o Éden.
A história é dividida em 6 partes: O “Prólogo” e o “Epílogo”, e quatro capítulos centrais, intitulados “Dor”, “Luto”, “Desespero” e “Os Três Mendigos”. Depois de toda polêmica que o longa causou em Cannes, as cenas extremamente violentas já não são novidade para ninguém que ainda não viu o filme. Ainda mais já sabendo que Von Trier é um diretor polêmico, e Anticristo não será um filme para assistir na sessão da tarde.
Falando sobre a estética, este é sem dúvida o longa mais bem cuidado da carreira do diretor (lembrando que eu não assisti a nada dele anterior a “Dançando no Escuro”). O prólogo traz uma longa sequência em slow motion, que já se tornou uma das cenas mais lindas que vi no cinema nos últimos tempos. Grandes closes de cenas fortes, misturadas à cenas aflitivas da criança, tudo em tons bem azulados, ao som de canto gregoriano. Difícil de explicar. É o tipo de coisa que tem de ver para crer. E na telona, por favor. Ao longo dos capítulos centrais, o diretor retoma seu estilo peculiar de câmera na mão, planos bem abertos, e detalhes sempre chocantes.
E por falar em chocante, as cenas na floresta realmente chocam. E muito! Em mais de uma cena, eu não tive vergonha em assumir que não aguentaria e tapei meus olhos com as mãos, deixando a famosa fresta entre os dedos para, ao mesmo tempo, não perder um só segundo do filme. Mas o que pega mesmo em Anticristo não é o terror. As cenas são pesadas mesmo. Além das cenas de sexo, diversas cenas de mutilação completam as intermináveis discussões do casal.
Pra quem acha que fica apenas na polêmica, pode se surpreender ao perceber o quão profunda é a discussão temática do filme. A luta entre o bem e o mal é tema central, camuflada ou permeada pela dor dos pais ao perder o filho, recheado de conceitos filosóficos, científicos e até místicos. Pouco antes do final, começa a parecer que de fato “Anticristo” é polêmico apenas pela violência, e não passa disso. Mas o Epílogo fecha a narrativa com chave de ouro, te fazendo repensar o quão gratuito realmente podem ser consideradas algumas daquelas cenas.
Volto a insistir que quem assistir ao filme sem conhecer o universo do diretor (ou de outras obras no estilo), dificilmente assistirá ao mesmo filme que eu vi. Este não é um filme de terror convencional, que muitos estão acostumados a assistir com um belo saco de pipoca. Anticristo é obra de arte, e só reforça o status de Lars Von Trier, que ao longo dos créditos, dedica o filme à Andrei Tarkovsky, um dos mestres do cinema russo, famoso pela eterna discussão do funcionamento da vida e do espírito dos homens.