O título de Attenberg é fruto de uma pronunciação errada do sobrenome de David Attenborough; um erro cometido por Bella (Evangelia Randou), melhor amiga de Marina (Ariane Labed), protagonista deste filme de Athina Rachel Tsangari.
É importante observarmos este erro proposital feito por Tsangari logo no título do seu filme. Personagens, salvo exceções, não costumam errar deliberadamente pronúncias. Não faz parte do universo popular fílmico que nos é familiar—talvez a grande exceção sejam filmes de teor realista. Dito isso, por que diabos alguém insere no filme? Simples: Tsangari, neste Attenberg, fez um filme sobre seres humanos. Attenberg de Tsangari nada mais é que um brilhante estudo sobre a natureza humana e suas descobertas.
De fato, fiquei bastante surpreso com o estilo plástico adotado pela diretora. Attenberg não é nem comédia, nem drama; mas tampouco é uma dramédia. Também não é um musical, apesar de uma cena reveladora se desenvolver ao som de “Les temps de L’amour,” de Françoise Hardy, que dentro de poucos meses, imagino, se tornará largamente popular graças ao Wes Anderson e seu hábito que todos nós já conhecemos de usar músicas obscuras em seus filmes (hábito já largamente espalhado, como é sabido; basta olharmos o trailer de Submarine, de Richard Ayoade).
Mas divago. Como ia falando, o estilo estético de Tsangari é bastante simples: Praticamente todos os planos de Attenberg são estáticos, usando lentes de foco curto, angulares, que preservam ferrenhamente o realismo e o design da ação. À bem da verdade, esta quietude da câmera de Tsangari—auxiliada pela fotografia padrão com três pontos de luz de Thimios Bakatakis—nos permite contemplar com bastante facilidade pelos seus planos rigidamente orquestrados. De fato, muitas cenas de Attenberg são resolvidas em dois ou três planos, valendo-se de uma decupagem em profundidade que, como todas as decupagens deste modelo, obrigam o espectador a usar sua inteligência (e força de vontade, mas até pra isso é necessário inteligência) a navegar pelo plano. Logo, é fato que, graças ao seu ritmo pausado, Attenberg esconde em sua quietude muitas surpresas agradáveis, e que graças a inteligência de sua autora, ecoam dentro do tema humanista do filme.
Attenberg começa com Bella e Marina treinando beijos—e eu sei que você já ficou com vontade de assistir ao filme por que eu disse que duas amigas ficam se beijando logo na primeira cena. Num plano mais aberto—e o último da cena, também—reparamos um contraste entre a parede branca de uma casa no subúrbio da cidade industrial-litorânea, que abriga a ação do filme, e um pequeno terreno baldio tomado por gramíneas verdes. Logo, a montagem corta para a sequência dos créditos, que são ilustrados por planos de lugares onde algumas cenas tomam lugar.
O que é curioso é que nestes quadros aparentemente prosaicos, os mais atentos observarão que sempre há um elemento verde—ou, também, elementos artificiais, como um sprinkler que rega um gramado, ou um moletom verde no meio da quadra de tênis (a lógica se repete durante todo o filme, inclusive em lugares pouco prováveis, o que aumenta o brilhantismo da mise em scene de Tsangari, observe como o “verde-natural” se faz presente durante uma tomografia). O importante disso, e que revela mais uma prova da sabedoria de Athina Tsangari, é que estes quadros revelam justamente um dos temas-mote de Attenberg: A natureza humana, selvagem e emotiva; em meio ao nosso mundo cada vez cheio de tabus e de proibições—e artificial, como aquele sprinkler no gramado. Attenberg é um filme que lida com seres humanos, com suas emoções e com suas descobertas. E também, como se comporta diante de situações—e pessoas, obviamente—totalmente avessas ao que nossa natureza (atenção à palavra anterior) gostaria que fosse o ideal. Prova disso reside no fato que a melhor (e ao que tudo indica, única) amiga de Marina é Bella. E Bella, como você já deve ter matado a charada, é o oposto diametral de Marina. Bella é desinibida; Marina é introvertida. Bella sabe beijar—e beija muito—; Marina nunca beijou. Bella curte transar; Marina é virgem. E como costumam dizer, os opostos se atraem. Isso é uma verdade tão consciente às duas que em determinado momento, o belo roteiro de Tsangari inclui um momento em que—se não me falha a memória—as personagens dizem algo como “Eu te desprezo, mas te admiro” (peço que me corrijam se a fala não for exatamente essa). Dito isso, me arrisco a dizer que Tsangari assistiu a “saga” Crepúsculo e de lá tirou o nome daquela vadiazinha maníaca sexual conhecida nos guetos dos romances de vampiro como Bella Swan para batizar um personagem humano.
Mas voltando ao filme: Já que falamos em processos de polarização, acho válido observar que, num certo olhar, a relação Marina/Bella encontra eco na minha observação sobre o natural/artificial acima. Ora, vejamos: Bella não é, afinal, parte do comportamento mais animal—e, por lógica, natural—do ser humano? Ela gosta de amor, de sexo, e sonha com (juro!) pereiras de pênis. Marina, da sua parte, se espanta com o simples uso de palavrões—ela recrimina o pai moribundo por falar a palavra “babaquice”. De fato, Marina até estranha o uso da palavra “porra”, quando Bella descreve a sua árvore de paus.
“Eram [pênis] grandes, médios e pequenos; flácidos, ou suculentos e leitosos; de onde emanava um forte cheiro de porra.”
“O que é porra?”
De todo modo, é interessante observar que mesmo que as duas gurias fiquem juntas durante boa parte do filme, Attenberg, de modo algum, é um buddy movie. Há uma protagonista bem definida, Marina, que é o eixo permanente do filme—afinal, Attenberg nada mais é do que a crônica do descobrimento de Marina: Seja sexual, humano, ou sobre seu desenvolvimento psicológico. Para acentuar seu protagonismo, observe que Marina sempre está à direita do enquadramento (especialmente quando com Bella). E apesar da hipotética maturidade de Bella, veja que nas cenas em que as duas brincam juntas no quintal do edifício desta (que serve de interlúdio para as passagens focando a dinâmica Bella/Marina), as passadas das duas sempre são sincronizadas—algo que passaria despercebido se a montagem de Sandrine Cheyrol e de Matthew Johnson (dois montadores num filme como esse é algo um tanto estranho, mas vá lá) não inserisse alguns planos detalhes dos joelhos das duas garotas.
E é tão claro que não é um buddy movie graças a interessantes passagens relatando a frieza emocional inicial de sua protagonista para com seu pai, Spyros (Vangelis Mourikis), com quem troca conversa de assuntos mais “intelectuais” (tabu sobre incesto, tabu sobre sexo, etc.); até sua natural, compreensível e humana revolta com a morte do homem. E isso, claro, sem contarmos a tocante cena da primeira transa de Marina (é curioso que o Microsoft Word esteja querendo que eu troque “transa” por “relação amorosa,” o que confirma meu pensamento sobre o cinismo moderno, na abertura deste texto).
Focando o fator humano e a sensibilidade (seja com uma sequencia musical em que Marina e a amiga cantam “Tous les garcons et les filles”; seja com uma cena tocante em que o nervosismo de Marina faz com que seu improvável amante deixe a oportunidade de uma noite de sexo passar para preservar os nervos da moçoila), Attenberg se destaca, mais que por sua inteligência, por não ter um “final”. Tsangari nos deixa apenas com a consumação da humanização definitiva de sua figura que nos serve de protagonista, enquanto ela tenta não chorar diante do leito de morte de seu pai, enquanto escutamos Be Bop Kid.
O pai gostava de bebop jazz.