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Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami

Nos dias de hoje, qual é o limite entre o real e a fantasia? Vivemos da realidade, ou da projeção que fazemos de nossas vidas?

Escrito e dirigido por Abbas Kiarostami, “Cópia Fiel” bagunça com a linha tênue entre realidade e ficção, nos fazendo pensar e repensar a própria existência. Conta a história de James, um escritor de meia idade que está na Itália para lançar seu livro mais recente, que leva o nome do filme. Em seu livro, James discute o impacto da originalidade x cópia no mundo da arte, e acaba relacionando suas teorias com situações da vida real. Durante sua estadia conhece Elle (vivida por Juliette Binoche) e com ela embarca em uma viagem pelo interior da Toscana, onde descobrirão muito mais coisas em comum do que podiam imaginar.

Durante a primeira metade do filme, sabemos muito pouco sobre as personagens, e passamos a conhecê-los melhor conforme um também vai conhecendo ao outro. Em uma espécie de “Antes do Pôr do Sol”, em uma versão mais madura, os personagens passam uma tarde remexendo no passado de uma relação que jamais teremos certeza se realmente existiu. Até a metade, nos convencemos de que são estranhos se encontrando pela primeira vez. Mas após a fatídica passagem por um café, onde a dona os confunde como marido e mulher, nós passamos a nos questionar também se tudo o que estamos vendo é realidade ou ficção.

De repente, a história de James e Elle juntos passa a fazer sentido, e acreditamos estar diante de um casal em crise. Uma mulher obrigada a criar sozinha o filho pequeno. Um homem que passa muito tempo longe de casa. Um pai ausente. Um filho que mal conhece o pai.

Mas, como todo bom filme europeu, Kiarostami não nos entrega o final de bandeja, todo mastigado. A cena final se transforma no subir dos créditos, e o filme termina sem que possamos absorver tudo o que acabamos de ver. E ao final da sessão, a grande dúvida fica no ar: eles realmente são (ou foram) um casal de verdade? Depois de pensar muito a respeito, existem diversas cenas ao longo do filme que respondem a questão positiva e negativamente.

Creio que a mágica do filme (e do roteiro) seja realmente deixar a dúvida no ar. Cada um consegue juntar as próprias peças e chegar à conclusão que mais lhe parece confortável. Para mim, pessoalmente, tudo não passa de uma grande encenação. Elle acaba projetando em James seu casamento frustrado. Descarrega seus sentimentos e constrói uma fantasia ricamente detalhada com infinitas situações do casal. James, por sua vez, custa a entender o que está acontecendo. Mas uma vez que a ficha começa a cair, acaba entrando na fansatia de Elle e permite-se acreditar. Ao longo do filme, constroem um relacionamento que é a “cópia fiel” de um casamento que nunca existiu, com discussões e desentendimentos de um casal tradicional. E no final das contas, o mais importante é a forma como nós vemos o outro, e não o que ele realmente é.

“Cópia Fiel” não é um filme fácil, muito pelo contrário. Se sustenta em planos sequência muitas vezes cansativos, mas igualmente ousados. O roteiro nem sempre acerta, mas quando o faz, traz momentos e diálogos lindos e riquíssimos, as vezes construídos apenas com belas imagens – de uma fotografia também muito bem executada.