Reviews of Crimes and Misdemeanors
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barbudean
31May11
Foi em uma entrevista concedida à Revista Time, em 2008, que Woody Allen não só desconstruiu sua persona neurótica frente ao entrevistador, que lhe disparou 10 perguntas diretas, mas, quando perguntado se “Bons artistas copiam, grandes artistas roubam ideias”, respondeu que é um ladrão sem-vergonha e que roubou do cineasta sueco Ingmar Bergman e de outros vários artistas e pensadores, ideias e conceitos que o ajudaram a se definir como diretor. Sarcasmos à parte, o cineasta das neuroses cotidianas certamente se espelhou em dois dos maiores gigantes do cinema (Bergman) e da literatura (Dostoiévski) para realizar seu filme mais amargo, Crimes and Misdemeanors, de 1989.
Woody Allen reafirma, em Crimes and Misdemeanors, sua paixão pelo cineasta sueco, tanto por abordar um drama profundo numa linha semelhante a do diretor, como pela fotografia sóbria do filme, que foi assinada, inclusive, por Sven Nykvist, com quem Bergman trabalhou em alguns filmes. A outra (nítida) influência é a da obra Crime e Castigo, do escritor russo Fiódor Dostoiévski, que se evidencia nos dilemas e questionamentos filosófico-existenciais de um dos protagonistas do filme.
Em Crimes and Misdemeanors, Allen, ao contar duas histórias paralelas que transitam entre o drama/suspense e o tragicômico, discute questões como o adultério, culpa e assassinato, temas posteriormente abordados em Match Point (2005), e se aprofunda nos dilemas morais impostos ao homem comum com uma forte, pessimista e amarga pincelada existencialista nas suas reflexões mais pungentes. Apesar do tema sério (o que nunca o impediu de fazer piadas a respeito), Allen não abre mão do humor característico de suas obras, mas é feliz em utilizá-lo de forma mais sutil e contida, em relação às suas comédias mais famosas.
Na trama, temos, de um lado, Judah Rosenthal (o ótimo Martin Landau), um famoso oftalmologista novaiorquino que vê sua vida prestes a desmoronar quando sua amante, Dolores Paley (Anjelica Houston), completamente neurótica, ameaça contar a sua esposa não somente a relação entre eles, mas também os supostos atos ilícitos da sua carreira de médico, caso ele não cumpra as promessas feitas nos últimos dois anos em que alimentaram uma paixão, ponha um fim no seu casamento e passe a viver com ela. O médico, desorientado, procura a ajuda do irmão, que se prontifica a arquitetar um assassinato para livrá-lo do sofrimento e instabilidade causados pelas ameaças da amante – o que acaba se concretizando, mas tendo uma repercussão não tão simples como ele planejava. Do outro lado, temos Cliff Stern (Woody Allen), um diretor fracassado e infeliz no casamento que, por questões exclusivamente financeiras, decide abrir mão de sua paixão, um documentário sobre o professor-filósofo Louis Levy (responsável pelas mais belas reflexões contidas no filme), para dirigir um filme sobre o seu cunhado, Lester (Alan Alda), um bem-sucedido, pedante e medíocre produtor de cinema, que ele, por sinal, detesta. Durante a produção do filme, conhece e se apaixona pela produtora Halley Reed (Mia Farrow), que se interessa pelo seu desejo em realizar uma série de TV sobre o filósofo que Cliff idolatra. Ambas histórias tem o adultério como pano de fundo e por mais que elas acabem se cruzando em determinado momento do filme, não é só isso que elas tem em comum.
Reflexo claro do momento mais sombrio da sua carreira, Woody Allen levanta, aqui, de forma madura e séria, questões que geralmente aborda numa perspectiva mais humorada, irônica e menos dramática. Principalmente pelos dilemas morais enfrentados por Judah (o oftalmologista adúltero que tem uma “família perfeita” e uma carreira bem-sucedida e respeitada), que, diante da culpa e sofrimento após a morte da amante, acaba se reafirmando como um homem cético e pessimista. São com os dilemas de Judah que as reflexões do longa tomam forma, sobretudo, para quem compartilha da visão amarga de que não existe sentido algum na nossa existência e que, na verdade, somos nós, no decorrer de nossas vidas e diante da complexidade de nossas escolhas, que vamos adicionando sentido a ela (“Somos feitos das nossas escolhas morais, independentes de Deus”, diz o filósofo Levy em uma das passagens do filme). Essa percepção humanista é brilhantemente ilustrada quando Judah, ao sucumbir a velhos valores religiosos aprendidos na infância, termina por perguntar a si mesmo onde está esse tal Deus que tudo vê e que não o puniu pelo crime que cometeu. Como se perguntasse, desencantado, qual a relevância e significado dessa conduta moral impetrada por deuses e religiões se eles parecem fechar os olhos e permitir atrocidades como o assassinato. Allen recorre a flashbacks para ilustrar não somente os momentos de Judah com sua amante, mas para resgatar lembranças da infância da personagem, quando sua formação religiosa ia se enraizando, a exemplo da frase proferida pelo pai de que “Os olhos de Deus tudo vêem”. Um desses flashes é memorável e, até, divertido: quando, ao visitar a casa onde morou com os pais, Judah “volta ao passado” e interage com os seus patriarcas, que discutem religião e política durante um jantar em família, sobre as implicâncias morais de um assassinato, mostrando, aqui, o bom e velho humor de Woody Allen, bem a la The Purple Rose of Cairo (1985) e Deconstructing Harry (1997).
Por outro lado, a boa sacada do cineasta foi, como paralelo, contar uma história que acaba, num sentido muito mais metafórico do que a própria questão da traição, se aproximando àquela do oftalmologista adúltero e “amoral”. Trata-se dos dramas enfrentados pelo personagem Cliff (Allen), que mesmo disparando algumas pérolas como “A última mulher em que penetrei foi a Estátua da Liberdade” e garantindo o humor na medida certa para dar equilíbrio ao filme, também é um personagem trágico e frustrado. Cliff, além do casamento infeliz e de dirigir um documentário sobre o cunhado medíocre que tanto detesta, tem de lidar com uma série de adversidades na sua vida. Como o fato de idolatrar um filósofo que, apesar de celebrar a vida e o amor, acaba cometendo suicídio; e o de se apaixonar por uma produtora de TV doce, inteligente e que corresponde aos seus anseios artísticos e filosóficos, mas que prefere, para a sua surpresa (e do espectador), ficar com o seu cunhado, desconstruindo, portanto, os seus ideais românticos. É o olhar de um cineasta documental, que pretende retratar a vida como ela é (um paralelo à metáfora do “olho que tudo vê” do Deus da outra história), agora comprometido (ofuscado) diante dos infortúnios e ironias da vida.
A criatividade do Woody Allen também entra em cena nos momentos mais divertidos do filme. Isso se vê quando ele, como uma forma de associar as tramas paralelas e interligar as narrativas, utiliza, nos cortes de uma história para outra, cenas de filmes clássicos que remetem diretamente aos diálogos da história anterior. Como quando após Judah e seu irmão discutirem a “viabilidade moral” do assassinato da sua amante, haver um corte direto para uma projeção antiga assistida por Cliff e sua sobrinha, onde os atores estão conversando também sobre um assassinato. Sâo esses momentos, por sinal, em que Cliff e sua sobrinha vão a sessões de cinema, onde ele dá lições “valiosas” para a esperta menina, os mais agradáveis e divertidos do filme. Allen, ainda, faz uso de uma trilha sonora refinada – o que também é característico em seus filmes – com música clássica, no caso, Franz Schubert, em momentos certeiros do filme, o que acaba resultando num casamento magnífico entre fotografia-som, já que a música de Schubert soa apropriadamente trágica durante as cenas fotografadas por Sven Nykvist.
Muito mais amargo do que estamos habituados a ver, Crimes and Misdemeanors funciona como uma síntese da carreira irregular do Woody Allen – cheia de acertos e erros, por combinar o suspense ao tragicômico com bastante sucesso. O filme, um dos mais peculiares e maduros da sua trajetória, é um exemplo fiel da magia do cinema alleniano e também é, sem dúvida, um dos melhores de toda a sua vasta filmografia, que junto a outras obras-primas com contornos mais sérios, como Hannah and Her Sisters (1986) e Match Point, o consolida como um dos mais consagrados diretores da mais alta estirpe do cinema autoral contemporâneo.
- Currently 5.0/5 Stars.
Cremildo
5Sep10
A relatividade de valores morais é a principal questão sobre a qual Allen se debruça enquanto cobre, com absoluto controle, duas vertentes da trama – uma cômica e outra trágica, temperadas com pitadas de suspense e romance -, que irão se unir ao final. O autor semeia reflexões inquietantes ao sugerir que, por exemplo, um assassino pode, sim, dormir em paz à noite, aprendendo a conviver com a tomada de uma terrível decisão. Remorso, troco do destino, justiça poética, nenhuma dessas tábuas de salvação hollywoodianas apela ao intelecto perspicaz e implacável de Allen. Alguém duvida que assim são as coisas do lado de cá da telinha?
- Currently 4.0/5 Stars.
Braden Vallenères
26Jul10
I loved the juxtaposition between the separate stories, each with its moral dilemma. A murder in one, infidelity in the other. I noticed how Woody Allen used his camera to draw the audience into the debate, almost forcing us to come to terms with which situation we cared about more, which we condemned the most (that is, if we condemned them at all).
For instance, in the Martin Landau/murder portion of the film, Allen used long shots at key times, almost to distance us from the characters, to emotionally detach us from it. On the other hand, in the Woody Allen/infidelity portion, Allen used a lot more close-ups at key times, drawing us more into the story and calling attention to the ethical dilemma. You have to stop and remind yourself that murder is more serious than the infidelity portrayed in the comedic half of the film, which forces you to ponder the same questions about morals and higher powers that the characters themselves are pondering. Brilliant.
Also, I loved the ending when the Woody Allen and Martin Landau characters met and discussed the situation, emulating the kind of debate the audience should have after watching the film. It’s very much in the style of Incomplete Cinema, the Cuban theory of radical film from the 70’s. Great stuff, this.
F.B. Elliott
26Jun10
I must say that despite the fact that I’ve been very fond of Woody Allen’s work for a long time I hadn’t watched this exceptional movie until a couple weeks ago when I found it while buying other movies. Of course I had heard of it but I never showed too much interest in seeing it. I deeply regret it now since I consider it to be one of his best.
“Crimes and Misdemeanors” follows two main characters: Judah Rosenthal (Landau), a successful ophthalmologist, and Cliff Stern (Allen), a struggling documentary filmmaker. Both of them are confronted with moral crises. On the one hand, Judah’s crisis concerns his affair with a flight attendant Dolores Paley (Huston). After it becomes clear to her that Judah will not end his marriage, Dolores attempts to inform his wife of their affair. On the other hand, Cliff, has been hired by his pompous brother-in-law, Lester (Alda), a successful television producer to make a documentary celebrating Lester, whom Cliff grows to actively despise. While filming, he falls in love with Halley Reed (Farrow), Lester’s associate producer.
Of course that Allen’s story is funnier than Landau’s, which does not mean that is comic because actually is really sad, but they both talk about the same. This film is another aspect of Allen’s view of life. As always, he shows us its misery, loneliness, suffering and sadness but, in this case, he emphasizes the injustices we all go through, he highlights the inequitable human behavior that makes many people’s life miserable totally criticizing the concept of “karma”.
A movie that leads us to a deep reflection upon ethic matters. Five-star film.
- Currently 5.0/5 Stars.
J. Ridiculous
8Jun09
You either love his movies or hate them, but if you love them, few writer/directors can match the exquisite richness of Woody Allen. He makes films about adults and about large, complex themes. He makes films about realtionships; our relationships with the world, each other and ourselves. Crimes and Misdemeanors is one of the best examinations of morality ever made in America. When Woody is bad, he’s truly awful, but when he’s good, he’s the most sublime of storytellers.
- Currently 5.0/5 Stars.