Lembro bem que, ao escrever sobre “Anticristo”, em 2009, comecei a resenha alertando os leitores que um pré-requisito para aproveitar melhor o filme era já ter assistido ou ao menos conhecer o universo cinematográfico do diretor, no caso Lars Von Trier. Pois antes de falar qualquer coisa à respeito de “Enter The Void”, repito minhas palavras e digo que é obrigatório saber algo sobre Gaspar Noé, o diretor e roteirista do filme. No meu caso, ainda não tinha assistido à nenhum de seus trabalhos anteriores, mas já sabia que Noé era o responsável pelo polêmico filme “Irreversível”, que fez muito barulho quando estreou no começo da década passada. Portanto, já sabia que não se tratava de um filme fácil, nem pela temática, nem pelas seqüências. Pois bem, vamos ao que interessa.
Não faço a menor ideia se este filme chegará ao circuito brasileiro. Mas caso isso aconteça, eu só consigo pensar em um título que se encaixa perfeitamente à obra: “Epilepsia”. Claro que digo isso com bom humor. O fato é que não lembro de ter assistido à um filme com tantas luzes, e tantas cores se alternando nos poucos e diversos ambientes da trama. A trama que, por sua vez, não traz absolutamente nada de fascinante. “Enter The Void” conta a história de Oscar, um estrangeiro que é assassinado em Tokyo, e passa a seguir todos os passos da irmã (e amigos) que deixou para trás. Isso porque ele descobre, através de um livro, que após morrermos, passamos um tempo no limbo, entre o mundo real e a próxima reencarnação. Mas na verdade o limbo é a própria existência, mas apenas em alma. O motivo que leva Oscar à “seguir” sua irmã após a morte, é o pacto que ambos fazem quando pequenos, de jamais se abandonarem.
Não que o roteiro não seja bom. Mas não é algo que se sustente por 2h40 de filme. Por outro lado, se o roteiro não sustenta, algo no filme tem de ser bom para te segurar. Neste caso, com certeza se trata da fotografia e da direção de arte. Os passeios de câmera em longos planos seqüência são de hipnotizar qualquer apreciador da sétima arte. Os enquadramentos se dividem em 3: boa parte do filme acompanhamos Oscar em primeira pessoa, com a câmera subjetiva. Em outros momentos, a câmera se posiciona sempre atrás de sua cabeça, quase como se o estivéssemos seguindo. O terceiro tipo de câmera mais encontrado no filme (e o meu preferido) é a câmera aérea, mas que filma tanto planos internos como externos, em cima das pessoas, como se a câmera estivesse á 90º do objeto em questão. Tudo isso aliada à uma composição de cores em tons fortes, extravagantes e muitas vezes neon, que revelam uma Tokyo um tanto intimista e solitária, nada parecida com a cidade que estamos acostumados à ver pela tv. Só para não passar batido, enquanto assistia maravilhado aos passeios de câmera e às mudanças de cores entre os ambientes, foi impossível não lembrar de “O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante”, de Peter Greenaway.
Confirmando o que eu imaginava antes de assistí-lo, “Enter The Void” não é um filme fácil de ver. Muito do que tem ali poderia ser enxugado e encurtado, fato que possivelmente desse um ar totalmente diferente ao trabalho de Noé. Ainda sim, mesmo longo, mesmo cansativo, é um filme que merece sim ser visto pelos interessados nas técnicas e ousadias dos diretores que pensam fora da caixa. Um dos filmes mais impactantes que assisti desde Anticristo. Seja isso bom ou ruim. Enter The Void.