Se até agora Vertov era o documentarista que mais respeitava (tendo realizado o documentário que mais impressão me fez: “O Homem da Câmara de Filmar”), este foi possivelmente ultrapassado por Herzog. Acontece que não acredito que o documentário possa cumprir com a exigência necessária o objectivo a que se propõe primeiramente. Tendo, na sua génese, a ambição de relatar, ou documentar, a realidade objectiva, um documentário nunca será perfeito devido às características tecnológicas da câmara de filmar. O plano e o corte são inimigos da objectividade. Tudo o que nasce deles (e a que chamamos cinema) surge, portanto, como algo oposto a isto, e sempre subjectivo.
Vertov é o primeiro, a meu ver, a aperceber-se desta “fraqueza” do cinema, enquanto documento. No entanto, não a entendeu desta forma, como um defeito ou falha. Entendeu-a sim como uma propriedade criadora, que utilizou para afastar a realidade cinematográfica da realidade objectiva, e para representar de forma mais expressiva (e que entendia como mais perfeita) a segunda pela primeira.
Herzog vai um passo mais longe. Em vez de ludibriar esta falha, usando-a a seu favor como fez o russo, enfrenta-a, como documentarista.
Descrevendo um pouco do filme, Herzog começa por apresentar (a voz off que narra parte do filme pertence-lhe) uma cidade que anuncia ir ser assolada pela guerra. As imagens são feitas a partir de um helicóptero e o ritmo da edição é lento. Corta-se em seguida para imagens de arquivo de bombardeamentos, ao que se seguem novas imagens de helicóptero, desta vez surgindo na tela destroços de fábricas e outras estruturas, que compõem as lembranças duma cidade que ali existiu.
Perante estas sequências, duvidei da validade do filme. Reparei que, habilmente, Herzog nada me fornecia que confirmasse a verosimilhança das imagens que estava a ver. Não havia datas, nomes de locais ou qualquer outra “garantia” que me permitisse estabelecer uma conexão entre o que estava a ver e a realidade física e objectiva do mundo.
Conhecendo outros filmes da obra de Herzog, referindo-me aqui a “Aguirre” e “Grizzly Man”, senti-me tentado a achar que estava perante outro “trocadilho” do realizador. Através de uma edição ardilosa, Herzog iria falar de um tema que ainda estava por revelar, fazendo do filme que estava a ver um documentário não convencional (ou “puro”), mas uma colocação de temas reais num outro plano, “truque” que já tinha visto Herzog fazer.
- em Aguirre, os conteúdos processam-se de forma semelhante, aquando do desdobramento da personagem principal em duas realidades: a sua e a do mundo que o rodeia, e em Grizzly Man, quando ficamos divididos entre a nossa opinião e a do realizador acerca daquilo que é tratado na tela.)
Segue-se no filme uma sequência que é anunciada com o intertítulo que diz algo como “Objectos Encontrados Numa Sala de Torturas”. Durante esta são filmados os mais inimagináveis objectos (de serrotes a tesouras de poda) sobre mesas duma sala com um aspecto pouco acolhedor.
Foi neste ponto que Herzog levou a minha suspeita ao extremo. Tais imagens, pensei, podiam ser produzidas por qualquer um, em qualquer parte do mundo e Herzog continuava sem me apresentar nada que garantisse a verdade daquelas imagens.
- existe outra sequência particularmente inteligente, onde é entrevistada uma mulher que fala num dialecto incompreensível. Herzog não coloca legendas e traduz ele próprio (voz off) o que a mulher diz. Fala-se do filho desta, que perdeu a fala durante um bombardeamento. Interessante ver que dados como a linguagem falada não são transmitidos directamente (sem passar por um intermediário, Herzog, o realizador) no filme.
E é então que filme “explode”, pelo menos a meu ver. Na tela, passamos a ver imagens colossais de oceanos de petróleo, pontuados por esguichos gigantes do mesmo líquido em direcção ao ar, todos eles culminando em fogo e fumo que enchem os nossos olhos e entram na nossa cabeça.
Neste ponto o discurso de Herzog cessa e somos deixados a comtemplar o apocalipse. E sabemos que é real. No entanto, Herzog, o documentarista, continua a negar-nos essa prova que ao longo do filme temos vindo a pedir. Não há datas, locais ou relatos. Nem o nosso narrador nos acompanha. A verdade do filmado é atingida somente pelo próprio acto de filmar, pela força da imagem, que se converte em facto, dispensando a linguagem escrita e outras supostas “asserções”.
Herzog vai mais longe do que Vertov na representação do real dando-nos “Lessons of Darkness”, um documentário onde apenas estão representados os factos, coisas que aconteceram e foram filmadas, sendo desprezada toda a restante informação “acessória”, que acabaria por se sobrepor e borratar a imagem bruta, gigante e real.
Outro ponto que importa referir é distinção desta verdade como algo subjetivo. Herzog expressa este filme com motivos pessoais, mas fá-lo abertamente. O realizador estabelece uma comparação directa entre a imagem e o seu tema e o apocalipse. Os termos desta comparação são estabelecidos através da banda sonora do filme, timbrada de grandiosidade, e através do discurso da voz off ao longo do documentário, muitas vezes assinalado por passagens bíblicas referentes ao dia do juízo final.
O realizador expressa, desta forma, a sua opinião relativamente ao que documenta. Esta opção é questionável, e já ouvi opiniões de pessoas que viram o filme e que só não o apelidam como a “obra-prima” de Herzog devido à existência da voz off.
O filme pode pôr em causa o seu exímio carácter documental devido à sua excessiva pessoalidade. Acerca deste assunto, a minha opinião divide-se.
Apesar de se manifestar sobre aquilo que documenta, Herzog fá-lo às claras, o que deixa espaço ao espectador para que crie a sua opinião acerca daquilo que se estende na tela, o que revela uma fibra moral digna de notabilidade. Dou também valor ao realizador por se assumir como Homem e aprecio a sua intenção de se dirigir directamente ao público que procura informar. Mas, acima de tudo, respeito a forma como a voz off de Herzog só se assume como a voz do realizador de documentário nos últimos dez minutos do filme, altura em que o espectador já teve tempo de definir a sua posição quanto aos assuntos expostos. E é nessa altura que Herzog se apresenta como uma companhia, uma voz que vem ao encontro da nossa, pela tela branca. Vem no momento mais oportuno, quando nos encontramos mais fragilizados emocionalmente. Mas virá para nos puxar para o seu lado dentro deste debate, ou para nos fazer companhia na sala escura de cinema?