Enquanto boa parte dos diretores de cinema tendem a fazer de cada novo filme um trabalho único, outros passam a repetir técnica e/ou temática, em uma espécie de busca e continuação da narrativa anterior. Com “Melancolia” (2011), Lars Von Trier parece estar entrando para o segundo time.
Neste novo trabalho, o diretor dinamarquês conta a história de uma longa festa de casamento, que acontece quase simultaneamente com a chegada de Melancolia, um planeta azul que está prestes a colidir com o planeta Terra.
Assim como em “Anticristo”, seu trabalho anterior, “Melancolia” se inicia com um prólogo em super câmera lenta, ao som de música clássica. Mas, se em “Anticristo” o prólogo servia para nos fazer entender de onde vinha a dor do casal, e abrir as portas para o início da narrativa, o prólogo de Melancolia traz imagens variadas (e quase abstratas) que servem como pequenas prévias do que veremos nos próximos 120 minutos.
Após a cartela com o nome do filme e diretor, também no estilo já característico de Von Trier, dá-se início então ao enredo. A narrativa é claramente dividida em duas partes: “Justine” e “Clair”, nome das duas irmãs protagonistas do filme. Em “Justine”, acompanhamos a festa de casamento de Justine e Michael, que está sendo realizada na casa de Clair e John, irmã e cunhado, respectivamente. Uma mansão completamente isolada no campo, que vira palco para uma festa de um casamento que já começa fadado a ver seu fim rapidamente. Enquanto Claire se esforça para que tudo saia conforme o planejado, Justine age como se estivesse fora de si, comportando-se de forma inconveniente e desrespeitosa.
Já a segunda parte do filme, Claire, se concentra nos dias seguintes ao casamento, onde acompanhamos Justine, Claire, John e Leo (o filho pequeno do casal) aguardando a grande noite em que Melancolia chegará o mais próximo da Terra possível, antes de começar a se afastar. Enquanto alguns afirmam que a colisão é iminente, John tenta convencer sua família que a chance de colisão é nula, e que o fenômeno que todos acompanharão se trata apenas de uma “passagem”.
Pela segunda vez consecutiva, quem brilha no filme de Lars Von Trier é Charlotte Gainsbourg. Repete seu papel de mulher forte, dominadora, mas que internamente sofre com suas próprias angústias. Podemos dizer que Melancolia traz o fim do mundo visto por dois olhares distintos. Seja em um casamento falido ou de fato em uma destruição física do planeta onde não há como escapar. De um lado, as ruínas de uma felicidade que jamais existiu. Do outro, as ruínas de um planeta habitado por pessoas que não farão falta alguma, segundo Justine, em um dos diálogos com a irmã.
Melancolia pode ser considerado um “filme-catástrofe”. Mas está longe de ser um daqueles convencionais, onde o filme começa com a catástrofe e o que vemos ao decorrer é como os personagens tentam sobreviver aos acontecimentos. Este continua sendo um filme de autor. E daqueles difíceis, complexos, definitivamente nada gratuitos. Mas apesar do título, não se trata de um filme triste ou melancólico. É angustiante, como toda obra de Von Trier. Aqui a angústia pela espera de algo que está fadado a acontecer.
Vale pelas atuações, pelos sempre intrigantes diálogos, pela fotografia que te faz participar de toda a ação, pela trilha sonora e, acima de tudo, vale pelo prólogo que, por si só, vale o ingresso para assistir na telona, mais uma vez.