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Richard Ayoade doing the Anderson

By Victor Bruno on February 13, 2012

O adolescente Oliver Tate (Craig Roberts) não é muito diferente de mim. De certa maneira, ele não é muito diferente de qualquer outro adolescente no mundo – ou de qualquer outro adulto com carência emocional. De qualquer jeito, prefiro acreditar que nem todo mundo é como eu. Logo, assistir as aventuras e desventuras amorosas, familiares e emocionais deste garoto é como se olhar no espelho.

Tate é um garoto singular, de raciocínio extremamente lúcido, claro e complexo. Ele é pensativo e observador, o que o leva a ter um conhecimento singular sobre a lógica humana. Conhece as atitudes de cada um dos que habitam a fauna docente e discente de seu colégio (que, pelos uniformes, soa ser um importante colégio particular da região onde mora). Portanto, um garoto de não mais que quinze anos com este comportamento só pode ser extremamente sozinho e solitário – e Oliver reconhece para si mesmo que prefere a sua própria companhia, o que é explicitado pelo filme quando é surpreendido pelo seu amigo Chips (Darren Evans) a “precisamente oitocentos metros da escola”. E essa cena, que poderia ser trivial para os mais desatentos (já que aqui acontece uma conversa sobre nada entre os dois), torna-se um interessante ponto de comparação quando a mesma coisa acontece entre Oliver e sua namorada, Jordana Bevan (Yasmin Paige) – e a reação de Oliver é totalmente diferente.

O fato é que Oliver Tate é um garoto depressivo, e necessita desesperadamente de atenção. E é aí onde a mágica do filme acontece. Richard Ayoade mostra-se um diretor bastante sensível a condição de Oliver – o que torna sua pequena obra ainda mais relevante. Vejamos, Ayoade não tem experiência alguma com direção. Na verdade, sua fama, ao menos na Inglaterra, vem do fato de ser a estrela da hilária série The IT Cowrd, onde interpreta o über-nerd Moss (se você acompanha The IT Cowrd perceberá que Moss é apenas uma variação de Oliver).

Voltando ao Tate e sua necessidade de carinho, leite e biscoitos (as únicas coisas fundamentais para a sobrevivência humana): Ele pode até gostar da sua própria companhia, mas isso não muda o fato de querer ser aceito pela sociedade e por aqueles que o cercam. A primeira seqüência já nos mostra isso. Escutamos Tate dizer “Às vezes me fecho em meu próprio universo imaginário e figuro como seria a reação das pessoas à minha morte”, e então a inteligente montagem de Chris Dickens e Nick Fenton corta para uma série de imagens onde vemos corredores vazios, alunos tristes, flores no pátio e até mesmo uma reportagem de uma rede de TV cobrindo a comoção que a suposta morte de Oliver causou na localidade – e em todo o país.

E esta necessidade de atenção e amor altruísta que Tate tem só é suprida pela mais improvável das pessoas, a tal da Jordana. A menina é tudo o que ele não é. Enquanto Tate é um menino tagarela, amável, mentiroso e observador; Jordana é calada, hostil, sincera, e nada observadora – ela não tem sequer uma opinião própria para as questões que intrigam Oliver. Seu único interesse – além de amar Oliver – é tacar fogo em tudo que vê (a menina é piromaníaca a ponto de ter uma marca de fósforos favorita). Seu interesse por incêndios e sua falta de empatia pelas complexas questões que envolvem o universo de Oliver produzem situações no mínimo curiosas: Quando Tate lhe pergunta por que ela não quer ler (ora, vejam só) “O Apanhador no Campo de Centeio”, Nietzsche e “uma peça tardia de Shakespeare melhor que ‘Hamlet’”, Jordana simplesmente responde “Por que eu iria querer ser como você, porra?”. E isso para não falar quando Oliver tenta pôr seu braço no ombro da namorada: Ela recusa com um gesto de ombro particularmente grosseiro – e não uma, mas três vezes. (Isso, particularmente me lembrou que um dos meus maiores medos numa relação – ou na tentativa do estabelecimento de uma – é que meu contato físico seja recusado. Simplesmente não sei lidar com rejeição física e – principalmente – amorosa.)

(Mas antes que eu descarregue neste texto todos os meus problemas emocionais, vamos seguindo.)

Falando desta maneira, Submarine até parece ser uma discussão racional sobre os amores adolescentes – um tema que infelizmente é mal compreendido pelo Cinema, até mesmo quando os próprios jovens tentam discuti-lo (por exemplo: Xavier Dolan transformou seu Os Amores Imaginários numa batelada de noventa minutos de conversas sobre cultura pop e Audrey Hepburn). Só que Submarine não o é. Quando Ayoade parte para os problemas conjugais dos pais de Oliver, seu filme passa a correr o sério risco de se tornar desinteressante, porque foi vítima do seu primeiro capítulo – apropriadamente alcunhado de “Jordana Bevans”. Ayoade põe seu personagem principal distante do seu foco narrativo inicial – e o mais interessante, também.

Felizmente, este segundo nicho narrativo (a possibilidade da mãe de Oliver está traindo o marido com um antigo namorado de escola) é igualmente interessante – e faz todo o sentido para a conclusão da trama, sem contar que é fundamental para a construção da trama. Oliver, assim como o Max Fischer de Três é Demais (Rushmore, 1998), é um adolescente que procura entender a lógica adulta. Então, uma vez que o atual estado do casamento de seus pais é fruto de um antigo romance que sua mãe teve, ele finalmente compreende que Jordana é fundamental para sua existência, e a ausência desta garota nesta parte da vida pode significar um futuro cheio de problemas. Oliver pode se transformar num clone do pai, o que seria terrível, porque logo na adolescência ele já mostra sinais de depressão e tédio existencial – características compartilhadas pelo seu velho.

Com todos estes laços narrativos amarrados primorosamente por este complexo roteiro, Richard Ayoade prova-se extremamente competente, mostrando que consegue compartilhar a complicada lógica existencial de seu Oliver Tate com momentos de humor absurdamente simplórios. E o melhor: Todos eles provêm desta mesma complexidade de seu personagem (uma nova comparação com Wes Anderson é inevitável). Oliver é capaz de tentar reconquistar sua namorada falando coisas como “Me desculpe por não ter ido ao hospital com você, mas meus pais estavam para se separar. Minha mãe masturbou um místico”, e quando ele vê que não deu certo, solta uma pérola: “Agora é o momento em que você larga seu novo namorado e vem comigo. Você vem?”, e Jordana diz “Não”.

Mas mais que isso, o Tate é um garoto atemporal; o que é habilmente captado por Ayoade, e seu desenhista de produção: Garry Williamson. Note como o filme não parece se situar no presente, mas ao mesmo tempo toca em um tema que todos nós, independente de quando fomos adolescentes, já vivemos. Submarine não parece se situar no presente: As televisões são retrôs, os carros são antiquados, a estética da coisa toda é bem kitsch. O que abre espaço para figurarmos três tempos possíveis para que nossa estória aconteça: Algum ponto dos anos 60 ou 70 (o que é impossível, já que os pais de Oliver vão assistir Crocodilo Dundee), o início dos anos 90 e o presente (o que é pouco plausível, mas não descartável). Só que isso realmente não importa. Talvez seja aquele lance da moda atual inventar de ser retrô – Jordana usa aqueles óculos grandões e um cabelo estilo Louise Brooks (que acho muito bonito, pra não dizer fofo, diga-se de passagem), algo que lhe confere um visual meio gamine (sou louco por esse tipo de garota, vide Olivia Williams no supracitado Rushmore ou qualquer foto da Marianne Faithfull durante os anos 60).

Mas Submarine vai muuuuito além de tudo isso. Ele é competente. Mostra que Ayoade é um diretor que sabe conciliar a história que conta com uma estética rebuscada e ousada. Aliás, seu estilo é chamativo (uma terceira comparação com Wes Anderson?), abusa do vermelho e do azul, de uma câmera nervosa, enquadramentos com um visual meio clichê. É extravagante, e ainda se permite fazer pequenas anotações mentais na cabeça do espectador (por exemplo: Jordana, ao contrário de todo mundo no colégio, que veste preto, usa um casaco vermelho). Ayoade inclui interlúdios com a tela ora azul e ora vermelha. Quando ela fica azul, significa que a estória agora é focada em Oliver e sua família, e quando fica vermelha significa que o assunto é Jordana. Que lindo. Resumindo: Submarine é o filme britânico mais fodão desde In the Loop (Idem, 2009). E sabe o que ambos têm em comum? Nunca foram lançados comercialmente aqui. Só que é inegável que (infelizmente) caí de amores por Submarine porque conheço uma garota que é doida igual à Jordana – e eu… hmmm… sou o Oliver?