Ao contrário do que aparenta, ZODÍACO não é o filme contido e convencional que a crítica vem apregoando ao diretor David Fincher, dado a arroubos de experimentação técnica em filmes como CLUBE DA LUTA e O QUARTO DO PÂNICO. Nem é uma releitura de SEVEN – OS SETE CRIMES CAPITAIS, ainda o maior sucesso do diretor e também focado em um serial killer. Fincher consegue voltar ao tema daquele filme, mantendo a experimentação que lhe fascina, só que não a colocando em primeiro plano como fez em seus trabalhos anteriores.
Ao contrário de SEVEN, ZODÍACO fala sobre um assassino serial real, que aterrorizou a Califórnia nas décadas de 60 e 70. Só que foca menos no assassino em si, cuja identidade nunca foi comprovada, e mais no processo investigativo perpetrado por um repórter (Robert Downey Jr.) e um cartunista (Jake Gyllenhaal) do San Francisco Chronicle e por uma dupla de policiais (Mark Ruffalo e Anthony Edwards). Fincher faz assim o seu TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE, o filme de Alan J. Pakula que explorou o trabalho dos dois jornalistas do Washington Post para desbaratar a conspiração que culminou na renúncia do Presidente Nixon. Esta aproximação não é só temática. Fincher realiza um filme ambicioso, minucioso e se mostra tão obsessivo com os detalhes da investigação quanto seus personagens. Obsessão, aliás, é a chave do filme, e nesse ponto ZODÍACO não faria feio na filmografia de outro cineasta contemporâneo, Christopher Nolan (de BATMAN BEGINS e O GRANDE TRUQUE). Assim, Fincher se afasta de seu tema favorito, o de como o homem retorna ao estado pré-civilizatório em ambientes ou situações hostis, para embarcar em uma narrativa que reproduz o mesmo perfeccionismo e preocupação com detalhes que marca seu trabalho atrás das câmeras e que lhe deu a fama de um cineasta difícil. É devastador como a obsessão que se instaura nos personagens centrais vai destruindo suas vidas e sua relação com o meio ao longo do caminho.
Outro ponto em comum entre ZODÍACO e o filme de Pakula é a forma. Enquanto TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE é uma típica produção resultante da madura fornada da década de 70, ZODÍACO, produzido 30 anos depois, faz de tudo para parecer um filhote daquela época. É aí que entra o completo domínio que o diretor tem dos elementos cinematográficos e da tecnologia digital, mais do que nunca aplicados em função da trama e da ambientação. Fincher, como o Michael Mann de COLATERAL e MIAMI VICE, utiliza a captação digital de imagens não para simular ou copiar uma imagem em película e sim para explorar o potencial que o sistema oferece para a criação de cores e texturas únicas do processo digital. E o faz com tal elegância e discrição que passa em branco ao olhar mais desavisado, daí as tais críticas relatadas acima. Não se engane: por trás do visual setentista, propositadamente envelhecido, encontra-se o que de mais moderno existe em efeitos e câmeras digitais de alta definição.
Mas como o que se esconde nos bastidores interessa mais aos críticos e aos estudiosos, o que realmente importa aqui é a forma como o espectador capta o resultado das técnicas empregadas. E a sensação é de que este está vivendo aquele período, ou de que pelo menos se lembra dele com a mesma intensidade que o diretor. Este era apenas um garoto (o que nos faz imaginar que ele poderia muito bem ser um dos filhos do personagem de Gyllenhaal) na ocasião, mas se recorda vivamente do terror que se instaurou em toda a população. Como em O VERÃO DE SAM de Spike Lee (que também mostrava como os mesmos crimes afetavam uma vizinhança) e BOOGIE NIGHTS de Paul Thomas Anderson, as referências estão tanto nas cores e cenários quanto nos gestos e atitudes (repare também nas datadas aberturas da Warner e Paramount). É por tudo isso o trabalho mais maduro do diretor. E uma experiência fascinante mesmo para aqueles que ainda usavam fraudas na época retratada.