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Família: Causa Amante

By: JHB

“Tudo
tinha nascido como uma estrela irradiante, admitiu-o mais tarde; no decurso da vida efectuaria, compenetrada, uma desritmada penetração de épocas, idades simbólicas do tempo; ao som do relógio que, naquele momento marcava cinco horas, vinte minutos, a quarta hora depois da uma hora e vinte, hora do nascimento, a parteira esperava a claridade do dia para sair, encostada à janela que dava para a rua do Ourives, e que ela percorreria sempre com outro nome: a rua dos Ourives Transparentes, ou com o seu próprio nome que lhe seria dado, depois, em promessa de fidelidade. Por enquanto, uma época nascente espalhava-se à volta dela, que dormia nos cheiros de sua mãe
de quem era cativa.
Tímidas queixas levavam para dentro de casa, até à cozinha e à varanda, a música ligeira e celeste, e os animais de carga arrastavam na rua legumes e víveres para o mercado, através da luz artificial dos candeeiros que já se extinguia naquela manhã.
«Não é um varão», pensou o pai que, com alguma tristeza, fazia um exame íntimo. Abriu a porta para os cheiros do sangue saírem. «É tão pequena, dar-lhe-ei um pequeno nome: Ana. Se for quem eu espero, seu nome será grande mesmo sem que a vejam. Sou velho, ou quase. Homem, ou mulher, pouco importa.
Nada ainda modificou o mundo».
«Ana», chamou à beira do berço.

Para viver, é preciso procurar nas trevas; é preciso percorrer o lugar não mais alto que a altura de um animal, e achá-lo revestido de múltiplos espectáculos. «Ana», repetiria muitas vezes, antes de morrer."

Causa amante, Passo III; por Maria Gabriela Llansol

 

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