MUBI brings you a great new film every day.  Start your 7-day free trial today!
Watch a new film every day for $4.99.
Try MUBI for FREE.
 

Uma viagem pelos sonhos

By Marcos Ordonha on October 31, 2011

Paprika sem dúvida é um dos grandes representantes da filmografia do falecido diretor Satoshi Kon. O filme brilha esteticamente na produção gráfica e em sua temática íntima simples. A experiência pela animação é extremamente lúcida devido ao ótimo trabalho do prestigiado estúdio MadHouse, além de uma fluente trilha sonora de Susumu Hirasawa, companheiro do cineasta em outras produções – maravilhosas trilhas diga-se.

O filme aborda a revolução proposta pelas possibilidades terapêuticas através da conexão ao sonho humano por meio de um aparelho, o DC Mini, criado pelo gênio Dr. Kosaku Tokita. A trama toma o impulso inicial com o roubo e uso desenfreado desta tecnologia para desejos egoístas e homicidas, colocando em cena o alterego dos sonhos da colega e flerte de Tokita, a Dr. Atsuko Chiba, Paprika. E disto vem o perigo: ainda não se conhecer os limites do mundo em que se adentra, o mundo dos sonhos.

O enredo desenvolve o conceito de “sonho lúcido”: as nossas relações de controle e criação com a expressão das frustrações de nossas mentes e com as fronteiras e limitações da realidade quando estamos dormindo, além da possibilidade disto continuar depois de acordarmos, as conseqüências de manter a imaginação fluindo fora do plano onírico, em todas as suas consequências, no meio real. A história também trabalha a questão do controle dos sonhos, do choque quando outra pessoa pode estar em sua cabeça te induzindo e conhecendo seus desejos e medos.

Contêm spoilers

Afinal, mas o que é Paprika? Paprika é pimenta, o sabor que criamos. Paprika é o produto de tudo que podemos ser; ela é o desejo do sonho em suas fronteiras e limites, como é de Chiba. Paprika é a heroína que está por trás de todos os bons sonhos, ânsias e descobertas. Paprika surge para buscarmos Paprika, e encontrando-a, nos decidirmos se completar em nos mesmos.

Há um ponto do enredo em que Chiba e Paprika nos mostram um confronto com a necessidade, a decisão de unirmos o “sou” e “querer ser” pelo autoconhecimento e aceitação. Paprika é tudo o que Chiba quer ser, o seu oposto de suas atuais decisões, a outra Chiba é livre destas, enquanto a doutora a imaginou para se camuflar, junto a suas fragilidades e receios.

Aludida por Paprika em uma conversa com o detetive Konakawa, uma metáfora digna de nota da animação é o dialogo que se faz entre a internet e os sonhos: os dois expressando nossos desejos em mundos íntimos que criamos ou adentramos. Tem se também a cena do cinema, mas tal parte é de uma apreciação pessoal única.

O característico trabalho filmográfico de Satoshi por animações e temáticas mentais – como o citado suspense Perfect Blue – foram ideais para lhe dar segurança nos limites do tema, do filme como um todo.

Mesmo que alguns pensem em igualar a temática dos dois longas, Perfect Blue é um embrião desta mais recente obra do cineasta. Blue trabalha com a expressão de um desejo, um sonho se valendo de temáticas psicanalíticas para enganar o telespectador (válidas, diga-se) na plenitude de ferramentas de um mundo animado, que alias, em Paprika há tal aproveitamento de potencial técnico.

O longa se torna íntimo do público por conter peculiaridades ao cotidiano dos telespectadores, mas não deixa de ser único devido aos toques orientais e singulares de Satoshi Kon. Ele mostra esse e desejo que todos têm ao deitar e, por quê não, ao acordar..

A comparação com abordagens famosas como o bem produzido A Origem, de Christopher Nolan ou as inusitadas e únicas produções de David Lynch são de modo geral compreensível para se compreender diversas frentes do tema onírico, mas a singularidade da produção de Kon foi trabalhar o universo pessoal dos sonhos e do confronto com a realidade nas interessantes fronteiras de uma animação, sem pesar, mas fluir deliciosamente e juvenil para todos. E despreocupadamente, sem ser uma cartilha como Nolan e de dar inveja nos esplêndidos malabarismos de Lynch para com suas inserções simbólicas e surreais.

via Identidade Solida