Jane Eyre é um filme bastante interessante. Se tirarmos (juro) A Morta-Viva (I Walked with a Zombie, 1943), de Jacques Tourneur, esta é a décima sexta adaptação do romance de Charlotte Brontë a ser levada às telas de cinema – ao lado de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, este é certamente um dos romances mais adaptados para o Cinema. Então a pergunta que fica solta é: Como trazer algo novo a uma história que já foi recontada tantas e tantas vezes? Talvez uma seja necessária uma nova visão, uma abordagem aproximando-se de um novo ângulo, porque, à primeira vista, Jane Eyre é uma história banal de amor entre uma empregada e seu patrão. Entretanto, com uma nova lente, o romance de Brontë se transforma em algo que os estudiosos de Literatura chamam de Bildungsroman – uma história de auto-formação e maturação.
O que é mais louvável nesta nova versão dirigida por Cary Joji Fukunaga (ele é norte-americano, acredite) é a tentativa de preservação deste aspecto da estória. Temos aqui um interessante – e bem conduzido – drama que consegue equilibrar o elemento mais superficial da história (o romance) e o aspecto mais psicológico (a maturação). Neste aspecto, o Jane Eyre de Fukunaga é fascinante, mesmo que falho.
O filme, inexplicavelmente, começa no velho padrão in media res – ou seja, pelo meio; uma convenção covarde que vem sendo utilizada cada vez mais pela indústria atual. Essa decisão, além de inexplicável, é totalmente absurda e nos faz perder um grande tempo, sendo que Fukunaga e sua montadora, Melanie Ann Oliver, a modelaram para ganhar tempo e ser econômica: Já que estamos começando pela metade da história, o primeiro ato – onde a formação de Eyre é mostrada – é naturalmente comprimido e encapsulado. Isto significa dizer que o principal ingrediente motor da história, sua moral e visão de mundo, são estupidamente suprimidos – e uma vez que estamos falando de um estudo de personagem, qual é o sentido de deixar toda sua formação ética e moral de fora da história? Não faz o menor sentido.
Mas o pior deste primeiro aspecto da abordagem de Cory Fukunaga não é isso: As breves passagens que temos pela infância de Jane Eyre (neste período, interpretada por Amelia Clarkson) são usadas unicamente para que um pequeno e superficial drama seja inserido na história. Por exemplo, nunca conhecemos por que Eyre é segura sua fé em Deus com tanto afinco, já que não conhecemos sua educação religiosa – o que se torna mais grave quando nos lembramos que ela é uma órfã que foi educada por uma tia que simplesmente não dava a mínima para ela, preferindo mimar seu filho.
Todavia, eu estaria sendo injusto para com o filme se não dissesse que estas breves passagens não significam absolutamente nada para o filme: Dentro destes segmentos são encontradas verdadeiras pérolas, tanto do ótimo roteiro de Moira Buffini (que vem se especializando no filão “mulheres fortes” do Cinema) quanto da inteligente direção de Fukunaga (que abordarei em instantes). Em um determinado momento, logo após Eyre ser mandada permanentemente para um colégio interno religioso e exclusivo para garotas, a pequena garota se vira para sua tia, a Sra. Reed (Sally Hawkins) e solta um monólogo simplesmente fascinante: Sem jamais perder a aura de inocência que apenas uma criança pode ter, a Buffini constrói este monólogo utilizando apenas elementos religiosos, especialmente aqueles que nos rememoram danação, punição e castigo – especialmente enfatizado quando Eyre fala “Meu pai e minha mãe estão no Céu e eles estão vendo o que você está fazendo comigo – eles irão lhe julgar.”
Esta fala, assim como muitas outras durante o filme (como aquela quando Eyre chega à beira da morte na cabana St. John Rivers, e alguém diz que se ela morresse sua alma os assombrariam), é um alarmante lembrete de uma época da História da Humanidade em que as ações e idéias das pessoas eram guiadas pelo medo do Inferno (“É uma grande cova com fogo onde sua alma queimará por toda eternidade”) e o medo do mal (“Iremos expurgar o Mal do corpo desta garota”). Sendo assim, a reconstituição histórica do momento em que o filme se passa não é nada menos que brilhante. Durante o filme, escutaremos personagens dizerem que patrões e empregados não podem se relacionar em pé de igualdade (os empregados também partilham dessa idéia), chegando ao ponto de uma esnobe mulher se referir a Eyre, enquanto empregada de Thornfield Hall, como “criatura.”
Com uma arquitetura visual bastante rica, Fukunaga dirige seu filme de um modo espantosamente sóbrio e inteligente. A princípio, o diretor dispensa formalidades com a câmera e evita cair na formalidade imagética que os filmes de época insistem em ter (como se isso fosse atestar qualidade nesses filmes) – com apenas trinta segundos de filme, Fukunaga não hesita em pôr a câmera na mão para demonstrar turbulência e desespero.
Jane Eyre, de fato, está impregnado de simbolismos e referências visuais (algumas delas até metalingüísticas). Logo no início (sim, lá no estúpido início in media res), o diretor compõe um belíssimo plano que mostra Jane, à esquerda da tela, cercada de pesadas nuvens de chuva, raios e trovões, como se este fosse uma espécie de aviso para a triste e atribulada história de vida da garota – apesar de ser um fato que este simbolismo poderia ser emulado mantendo a linearidade da narrativa, bastando, por exemplo, que víssemos o castelo da família Reed sob estas mesmas nuvens de chuva e estes mesmos raios.
Felizmente, o diretor também preza para o modo como seus personagens são retratados. Para simbolizar a maldade e o domínio de seu cruel primo John Rivers (o excelente Craig Roberts de Submarine, numa ótima ponta), Fukunaga compõe outro plano extremamente inteligente, mas ainda que claramente impossível: a jovem Eyre é enquadrada no lado esquerdo, sob uma forte raia de luz branca (a pureza), enquanto John está do lado direito, moldurado por carpetes e papéis de parede vermelhos, num ameaçador contraluz. A leitura da imagem é clara, e se torna ainda mais patente com a cortina que separa os dois (uma forma brilhante de compor um split-screen diegético).
Mesmo com tudo isso, nós devemos admitir que o forte do filme são mesmo suas atuações – mais precisamente a de Mia Wasikowska. Ela interpreta Eyre com um estranho ar de doçura, de compaixão, de leveza – até mesmo quando parece incomodada, intimidada. Ela é uma atriz inteligente. Observe sua postura sempre ereta, mas jamais arrogante, um reflexo da humildade e da coragem que ela tem de enfrentar a vida. Até sua simplicidade (apaixonante) pode ser observada até mesmo no seu penteado: Na maior parte do filme, ela apenas faz uma trança atrás do cabelo, contrastando com os suntuosos penteados das mulheres que a acolhem no início do filme – e quando fica rica, o máximo que se permite fazer é um coque. Por outro lado, o Rochester de Michael Fassbender tem a coragem inversamente proporcional a de Eyre. Desde o início, quando já surge (olhe só como são as coisas) com uma entorse no pé, já fica claro que Rochester é alguém ferido, com algo para esconder. Um podre. Veja como sua postura curvada permite que sua poltrona lhe engula – entretanto, Fassbender jamais o interpreta como vítima, uma vez que sua potente voz transmite certa força/fúria contida.
Infelizmente, o filme é tapeado por uma leve falta de propósito. A “revelação” do “segredo” que Rochester esconde em seu sótão é estranha – culpa da estranha montagem do filme. Personagens que deveriam estar longe reaparecem no mesmo lugar, vindos do nada. O filme parece se esquecer que abandonou os flashbacks (espantosamente, toda a primeira parte de Thornfield Hall é um flashback que começou uma explanação de algo cerca de quarenta minutos atrás).
E eu queria dizer que a argúcia técnica do filme salva esse pecado – mas ele é grande demais para ser salvo. Sim, há outros fatores que compensam essa falha grotesca da montagem, ou mesmo alguns deslizes de direção de Fukunaga (ele cai na combinação clichê de primeiro beijo + pôr-do-sol + câmera lenta +ventania) e a genérica trilha-sonora de Dario Marianelli, como a brilhante fotografia do brasileiro Adriano Goldman (repare na gradativa mudança de cor da inicialmente gelada Thornfield), ou mesmo a própria montagem do filme (Rochester surge num plano, em frente a uma pintura de um pântano misterioso e Eyre surge num contraplano, com uma crepitante lareira ao fundo).
Olhando assim, o filme já não parece ser um estudo de personagem tão bom assim. Talvez nunca tenha sido.
É. Nunca foi. Quer ser, mas não é.