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A Origem, de Christopher Nolan

By Leonard​o Mascaro on March 29, 2012

Aviso: a resenha a seguir pode conter uma quantidade de spoilers acima do normal. Então se você ainda não assistiu ao filme, e se incomoda em saber detalhes importantes, volte depois da sessão. Obrigado.

Fazia um bom tempo que eu não entrava na sala do cinema com expectativas tão altas, e ao término da sessão perceber que não só tinha acabado de assistir a uma obra grandiosa, como a mesma tinha conseguido superar todas as minhas expectativas. Raro nos dias de hoje, onde somos bombardeados por tantos teasers, trailers, cartazes, opiniões, que quando finalmente assistimos ao filme, já sabemos mais do que está sendo mostrado. Enquanto escrevo esta resenha, me recordo que Nolan conseguiu o mesmo feito quando lançou o último Batman/Coringa. Apesar de tanto marketing pré-filme, ainda mais com a morte de Heath Ledger, o filme conseguiu ser ainda maior que qualquer expectativa. Talvez porque, apesar do bombardeio de informações, os trailers de seus filmes nunca entregam tantos detalhes, e nem explicam exatamente o caminho da trama, tornando a primeira sessão uma grande descoberta para o espectador.

Por tudo o que sabia sobre o filme antes de assisti-lo, achava que “Inception” mostraria Dom Cobb (DiCaprio) e sua trupe em diferentes situações de “roubo” nos sonhos, já que para mim a personagem não passava que um ladrão de sonhos. Sabia que ele tinha o “poder” de entrar dentro de seu sonho e arrancar qualquer informação. O que eu não sabia era que, além de roubar, Cobb também era capaz de implantar uma informação em sua mente, enquanto você dorme. E para mim esse é um dos grandes trunfos do filme: ao invés de se perder em diversas situações, acompanhamos (durante quase todo o filme) a jornada da equipe em uma missão específica de implantar uma idéia/informação na mente de uma pessoa. E o que podia ser uma enxurrada de efeitos especiais completamente sem sentido, torna-se quase um filme de espionagem futurista, nos melhores moldes do gênero.

Ainda sobre os efeitos, engana-se quem achava (como eu) que a cada 5 minutos veríamos as ruas da cidade entortando, pessoas flutuando e seqüências que jamais poderiam ser realizadas sem a ajuda do computador. Em “A Origem” tudo é muito bem pontuado, inclusive os efeitos. Nada é gratuito, e eles aparecem exatamente quando tem de aparecer, trazendo muito mais veracidade ao que está sendo narrado.

É verdade que a temática principal do filme (sonho x realidade) já foi (e será) discutida incansavelmente pelo cinema. Matrix, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Science of Sleep, Quero Ser John Malkovich… só para citar alguns. Mas engana-se quem pensa que este é apenas mais um daqueles filmes que a gente sai do cinema se achando o fodão e na verdade não entendeu bulhufas, o que não é o caso destes aqui citados. A trama de Inception, escrita também por Christopher Nolan, é sim bastante complexa. Mas ao mesmo tempo é bem mastigada e soltada aos poucos, na medida em que o filme vai ficando cada vez mais denso (e tenso). Não que uma segunda assistida não trará uma interpretação ainda melhor. Mas neste caso é possível sim acompanhar todos os detalhes da trama, ainda por cima se a sessão contar com uma boa discussão pós-filme com alguém igualmente interessado no que acabou de ver. Aliás, este é o tipo de filme que tem muito pano para longas discussões.

Diferente de algumas pessoas que acusaram o elenco de ser inexpressivo e a todo momento fazer caras e bocas dignas de quem está entendendo o filme ainda menos que o espectador, eu gostei bastante de todos os envolvidos. Além do DiCaprio, que vem se consagrando como um excelente ator nos últimos anos, gostei bastante da atuação da Ellen Page, que parece ter conseguido se desgrudar do tipo cool que a consagrou em “Juno” e ainda antes em “MeninaMá.Com”. Não que ela mereça uma indicação ao Oscar pelo papel de Ariadne. Mas com novas chances ela tem tudo para crescer.

Outro ponto que gostaria de comentar é a trilha sonora original, composta por Hans Zimmer. Achei super bem colocada, e de fato não consigo imaginar outra coisa para o filme. Mas alguém concorda que rolou praticamente um ctrl+c ctrl+v na trilha de “O Cavaleiro das Trevas”, longa anterior do próprio Nolan? Será que este clima e a parceria começam a virar uma das marcas registradas do diretor?

Há quem diga que “A Origem” não traz nada de inovador, que não passa de uma cópia de tudo o que já foi feito, ou que é apenas mais um blockbuster para não ser levado a sério. O que eu posso dizer é que é sim um blockbuster. Mas um blockbuster como poucos sabem fazer. Uma mega produção que não abusa dos efeitos especiais quase aleatórios, com protagonistas completamente sem expressão e a gostosona para atrair a atenção da molecada. Christopher Nolan sabe o que faz, e nos presenteia com cinemão em todos os sentidos, e melhor ainda, com conteúdo!

PS: Só leia este trecho final se você realmente tiver assistido ao filme. Ele revelará o final. Cuidado.

Para finalizar, gostaria da opinião/interpretação de vocês sobre o final do filme, para tentarmos (juntos) desvendar o mistério que ficou no ar. Afinal, ao reencontrar os filhos, Cobb estava preso em seu próprio sonho, ou estava acordado e de fato livre de todas as acusações? Apesar da cena cortar antes de sabermos se o peão parará ou não de girar, de cara eu concluí que ele estava vivendo o mundo real e tinha conseguido voltar para casa. Mas depois de um tempo percebi que as crianças estavam exatamente com as mesmas roupas, cabelo, tamanho de quando ele os viu pela última vez. Era a última memória que ele tinha de seus filhos. E, por mais que o filme não especifica quanto tempo se passou desde que ele fugiu, mesmo que tivesse sido por pouco tempo, alguma coisa estaria diferente nas crianças. O que vocês acham? Talvez essa nem seja a grande questão. Vamos debater!