Se depender de seu longa de estréia, Tom Ford tem tudo para ter uma carreira promissora no cinema. Aos 48 anos, o famoso estilista americano se arriscou na direção de seu primeiro longa, e começou com o pé direito.
“A Single Man” (me recuso a usar o título em português “Direito de Amar”) é uma adaptação de um livro de mesmo nome, escrito por Christopher Isherwood. Conta a história de George (Colin Firth), um professor inglês de meia idade que, após perder seu companheiro em um acidente de carro, tenta retomar sua rotina normal no dia seguinte. Talvez o filme não te convença pela premissa. Mas acredite, ele é muito mais do que parece.
A começar pela Fotografia e Direção de Arte extremamente bem cuidadas. Eduard Grau e Ian Phillips (fotógrafo e diretor de arte respectivamente) uniram forças para dar unidade ao tom das cenas, transformando os quadros em verdadeiras pinturas. O visual é claramente dividido em dois. Nas cenas em que George está sozinho (ou solitário), os tons frios dominam a tela, trazendo um tom introspectivo e melancólico. Já nas cenas em que George está acompanhado (e principalmente nas cenas com mais emoção) as cores ganham uma saturação quase exagerada, com tons sempre puxados para o vermelho (repare nos lábios dos jovens que George encontra ao longo do filme). Todo esse cuidado visual, talvez por influência da carreira de estilista do diretor, me remeteu diretamente aos clássicos do cinema italiano de diretores como Visconti e Antonionni, e também às famosas cores de Almodóvar. Outra cena belíssima que merece destaque, é a seqüência em slow motion de George dirigindo seu carro pela vizinhança e interagindo com cada personagem. Me lembrou até o slow motion que Lars Von Trier usou e abusou em seu maravilhoso Anticristo.
E se a parte visual é impecável, espere só até ver a entrega de Colin Firth e Julianne Moore nos papéis principais. Colin, até então quase desconhecido por mim, teria facilmente ganhado o Oscar se Jeff Bridges não tivesse destruído tudo com seu coração louco. Aqui acompanhamos um George introspectivo, cheio de desejos, angústias e muito receio (ou seria medo) de dar o próximo passo. Colin Firth se entrega de corpo e alma, e faz de George um quase Guido (Marcello Mastroianni em 8 e ½), tendo de revisitar seu passado em busca de respostas para o futuro. Aliás, até o visual da personagem lembra bastante. E se os atores merecem todo esse destaque, o roteiro é um grande aliado. “A Single Man” é cheio de grandes momentos de diálogos e citações que te deixam com raiva por não poder pausar e rebobinar quando bem entender. Em certo momento, citando o escritor Aldous Huxley a personagem diz: “Experiência não é o que acontece com um homem. É o que um homem faz com o que lhe acontece”.
A música de Abel Korzeniowiski pontua os grandes momentos da trama e emociona pra valer. Foi uma das primeiras coisas que ficou em minha mente ao subir dos créditos finais. Além da impecável trilha sonora, a edição/mixagem de som da o tom de uma das cenas mais fortes do filme quando, logo após receber a triste notícia, George sai correndo no meio da chuva para o braços de Charley (Julianne Moore). O som da chuva forte abafa qualquer resquício de diálogo que se possa ouvir, deixando a cena ainda mais impactante.
Bom, acho que deu para perceber que eu realmente gostei muito do filme, né? Ainda estamos em março, e tem muito filme pela frente em 2010. Mas este longa tem tudo para aparecer na minha famosa lista dos melhores do ano. Em dezembro a gente descobre. Não deixem de assistir!