“Acho que a vida é uma ideia muito ruim. Se essa ideia partiu de Deus, eu o culpo por tê-la largado no meio do caminho, sem levá-la à sua conclusão lógica”. “Isso é nascer sob uma sentença de morte”. LvT
Como fazer uma crítica sobre alguma arte quando não leu a Odisseia, ainda não viu Cidadão Kane, pouco sabe sobre música clássica e quase nunca foi ao teatro?
Bom, é o meu caso. Você foi avisado. Não me leve a sério.
Desde que vi Funny Games de Michael Haneke não consigo torcer por personagens. Cinema é manipulação, a história já está determinada, sua vontade não conta. Como num livro. Algo parecido.
Se Haneke perguntava ao espectador o motivo de continuar vendo violência, aqui cabe outra questão: qual a expectativa num filme sobre o fim do mundo? Torcer para um triunfo da nossa espécie? Neste caso, o filme já começa acabando com o suspense. A Terra vira poeira logo no prólogo.
Antes de assistir a Melancolia, mais recente filme do dinamarquês Lars Von Trier, eu já havia separado críticas, reviews, entrevistas e afins para ler após vê-lo, pensando que sentiria necessidade de escrever sobre a obra, já que se trata de mais um mergulho do autor no exame de sua própria depressão.
Não foi o caso. Duas horas de grande cinematografia, boa atuação e uma história razoável sobre convívio humano. Mas “só isso”. A vontade de escrever simplesmente não surgiu. “Só” porque, talvez, seus filmes mais recentes tenham elevado muito a expectativa sobre “o que vem por aí”.
O que me fez digitar estas palavras foi uma notícia que estava relacionada na página de uma crítica do filme. O título era: “Suicídio de jovem forçada a casar com estuprador causa protestos – Lei no Marrocos permite que estuprador escape da prisão se se casar com vítima”. Data da matéria: 15 de março de 2012. Ressaltado isso, vamos adiante.
O cenário de Melancolia é esse: Justine acabou de se casar. Sua irmã, Claire, aguarda com os convidados a chegada dos recém casados para a festa numa mansão. Um planeta está prestes a colidir com a Terra. O filme divide-se em dois capítulos, cada um com o nome de uma irmã.
“A Terra é má” – Justine
Durante a festa vemos os desejos de felicidades sendo trocados, já sabendo o desfecho fatal. O mesmo com relação às formalidades – tudo fútil, afinal. Toda a primeira parte do filme se resume nisso. Na segunda vemos o círculo familiar lidar com o desastre iminente.
A depressão de Justine se transforma em força e serenidade. O apocalipse, na verdade, a salvou do infindável teatro que a esperaria até sua morte. Não bastando isso, havia tempo para outra mudança: após ridicularizar a irmã por esta desejar que os três ocupantes da casa ficassem reunidos no momento do impacto de Melancolia com nosso planeta (“I think it’s a piece o shit” – sobre a ideia), Justine constrói uma cabana mágica para acalmar o sobrinho.
Não há abordagem da vida pregressa da personagem, não tendo como se precisar a intensidade e as causas de sua depressão. De outro lado, pode não se tratar de depressão afinal, mas apenas o sentimento de SABER, antes de todos, que tudo aquilo era inútil – revelado posteriormente na fala “Eu sei coisas”.
Justine, desgastada pelo fingimento e pelas cerimônias que compõem a vida, separa-se, pede demissão, faz sexo em público aleatoriamente, alimenta-se mal, recusa banho, mas não escapa da cerimônia do cosmos – a dança da morte entre Terra e Melancolia. Não só não escapa dela, como a deseja – cena na qual ela está na margem do rio à noite.
Talvez não apenas deseja, como seja a responsável pela aproximação do astro (“Depressão é o fim do mundo” – LvT).
“Tenho medo deste planeta estúpido” – Claire
Claire, nas palavras do diretor, “representa o ser humano normal. Comparada a Justine, Claire tem algo a perder. Ela tem família, não é egocêntrica como Justine e na situação de catástrofe iria entrar em pânico, tipicamente”.
“Pare de sonhar, Justine” – Gaby / “Você deve confiar nos cientistas – John
Para quem acredita em divindades, espírito e vida após a morte (quero falar, na verdade, sobre as religiões Abraamicas, com foco no ocidente), o apocalipse é um evento inevitável que porá fim na longa disputa entre bem e mal.
Mas para os que não compartilham com essas crenças, o “fim do mundo” pode ser transportado para o fim de suas próprias vidas. E o vazio da “eternidade no nada” não deixa de ser aterrador como um evento catastrófico.
Ou mesmo que se leve a Terra como referência, daqui alguns bilhões de anos o Sol perderá combustível, uma galáxia poderá se chocar com a nossa… teorias sobre o fim são tão numerosas quanto as teorias sobre o início.
Deixando de lado o aspecto espiritual e a compaixão com a nossa espécie, com o fim da sua vida e um vazio eterno pela frente, o que interessa se o Universo continue a existir, no fim das contas?
Temos algumas pistas sobre a posição do realizador:
Verificando que estava errado e, portanto, Melancolia colidiria sim conosco, o marido de Claire comete suicídio. Seu personagem é claramente representante do depósito de confiança na ciência. E ele é o primeiro a pular do barco.
A noiva afirma que a vida só existe na Terra. Como prova de que está certa, ela diz o exato número de feijões no pote, a loteria da festa.
Essa sensibilidade dela revela-se mais apurada do que os cálculos astronômicos.
O instrumento rústico e infantil desenvolvido pelo filho de Claire também demonstra-se confiável – mede a proximidade com que a melancolia se aproxima ao peito. Peito como contraposição à razão.
A ponte que as personagens não conseguiram cruzar com cavalo ou carro de golfe pode simbolizar num primeiro momento, a depressão e posteriormente a aceitação do destino certo.
Acredito que esta é a posição de von Trier: A natureza e o ser humano são maus; a vida só existe aqui; o universo/deus é indiferente.
Veremos como ele lidará com esta depressão em 2013, com o lançamento de “The Nymphomaniac”.
O filme explorará a vida erótica de uma mulher. Isso novamente me leva à notícia que me fez escrever essa “crítica”.
Há quem afirme que Lars é misógino, o que eu particularmente não acho. Em sua defesa, LvT diz: “quando acusam de misógino porque submeto minhas personagens femininas a sofrimentos e humilhações, estão, na prática, acusando-me de detestar a mim mesmo, já que elas são eu, um homem”.
Se alguém perde tempo procurando machismo na arte não deve perceber como as mulheres são tratadas na vida real.
A suicida da reportagem supracitada tinha 16 anos. Foi estuprada aos 15. Seu “planeta Melancolia” foi a obrigação imposta pela sociedade em que vivia de casar-se com o estuprador. Essa lei pode parecer absurda para nós hoje, mas regra semelhante está contida naquele best-seller… como é o nome?… Ah, Bíblia. O livro que seria o ponto de partida da moral ocidental.
Quaisquer que sejam nossas crenças, nossa cultura, nossas intenções, todos nós construimos uma caverna mágica (física e/ou de idéias) onde nos protegemos e esperamos nosso fim.
Alguns dias atrás colocamos um robô em Marte. Nossa espécie vai espalhar cabanas pela galáxia. Tão frágeis como a do filme.
“Crítica” retirada do meu “blog” margenssaturadas.wordpress.com