Não são muitas as continuações que se equiparam ao filme original, quanto mais que o superam. Dá pra contá-las nos dedos. A estas se junta agora o ótimo HOMEM DE FERRO 2.
Tony Stark, o alter-ego do herói, era um ilustre desconhecido do grande público quando chegou aos cinemas em 2008, sem a fama de um Homem-Aranha, Batman ou Hulk. Quase US$ 600 milhões depois, acumulados só nas bilheterias, o Homem de Ferro virou a sensação do momento.
Não é pra menos. Rico, famoso, espirituoso, inventor genial, excêntrico, playboy, narcisista e de bem com a vida e com os milhões, Tony Stark encarna o ideal para o macho moderno. Inspirado no também milionário e inventor Howard Hughes, Stark não carrega a culpa e a amargura de um Batman, que utiliza a figura pública de seu alterego Bruce Wayne como máscara para o justiceiro vingador que, no fundo, odeia tudo que Wayne representa. Pelo contrário, Stark gosta da idéia de ser um super-herói. É apenas mais um privilégio de sua condição financeira e social. Ao lado dos carros e iates caríssimos, repousa uma armadura invencível que o torna ultrapoderoso e o permite voar na velocidade do som.
Esta leveza com a qual o personagem encara a função é um refresco perto dos heróis angustiados que inundam as HQs e as telas. Batman, Homem-Aranha, os X-Men, até mesmo o Superman, todos encaram com seriedade, e nem sempre com prazer, o ofício de ser herói e carregam a culpa pelos poderes o colocarem num nível diferente do resto da humanidade. Não quer dizer que o Homem de Ferro não tenha responsabilidade social. Afinal, o herói surgiu a partir da tomada de consciência de Stark, que no primeiro filme é vítima das armas que ele mesmo ajudou a criar. O grande vilão de ambos os filmes do personagem é a própria indústria bélica que até então Stark ajudava a alimentar.
Mas a questão é que Tony Stark encara esta “obrigação” de fazer o bem da mesma forma que um James Bond o faz, algo que oferece também uma oportunidade para uma vida excitante e singular. Esta é a maior sacada dos produtores dos filmes do Homem de Ferro: aproximá-los das aventuras de 007, com sua profusão de locações internacionais e gadgets de última geração. Tony Stark é mais próximo do James Bond convencional do que o próprio agente apresentado nos filmes recentes da série – CASSINO ROYALE e QUANTUM OF SOLACE –, movido por um desejo de vingança que o torna menos “perfeito” perante o ideal masculino.
Interpretado com gosto por Robert Downey Jr., Tony Stark entra em cena em HOMEM DE FERRO 2 exatamente no ponto em que encerrou o primeiro, anunciando publicamente sua “identidade secreta”. Seguem-se as conseqüências desta atitude, com a mídia dividindo entre prós e contra, e o governo norte-americano pressionando para que Stark lhe entregue o projeto da armadura, visando a segurança nacional. Numa cena impagável, o protagonista é obrigado a comparecer perante a uma comissão do senado para justificar seus atos, sob pena de ser considerado anti-patriota. Em outra, o Homem de Ferro pousa grandiosamente no palco da feira de tecnologia promovida por Stark, que, no mesmo palco, tira a armadura revelando um perfeito smoking, numa homenagem explícita a uma famosa cena de James Bond em 007 CONTRA GOLDFINGER.
Os vilões genéricos da vez são Mickey Rourke, como um inventor russo que quer vingança contra Stark, e Sam Rockwell, como um fabricante de armas concorrente do herói. A maior ameaça ao herói, porém, é o próprio, já que o mesmo dispositivo que ele criou para sobreviver no primeiro filme o está envenenando aos poucos. As cenas de ação, como se espera de uma superprodução deste tipo, funcionam bem e são empolgantes, mas é visível o quanto o diretor Jon Favreau (que também interpreta o motorista de Stark) prefere se livrar logo delas para voltar aos personagens, principalmente ao próprio Tony Stark. A armadura é reluzente e imponente, mas a graça do filme está mesmo no homem dentro dela.