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RAM

By marcdon​i on December 5, 2010

“O lutador” é um belíssimo filme. Não vou falar das atuações de Mickey Rourke ou de Marisa Tomei, deslumbrante; pois muitos já falaram a respeito. São outros os motivos que me fazem achar este filme melhor a cada vez que penso nele. Mais do que a história clichê emotiva de um lutador decadente, o filme nos mostra, com rara sensibilidade em meio à violência, a dificuldade de lidar com o que há talvez de mais cruel em nossa existência: a passagem do tempo.
O entendimento de como essa questão se mostra no filme começa pelo nome do protagonista, Randy “The Ram” Robinson. “Ram” é substantivo [carneiro], mas também, e principalmente, é verbo [bater, golpear, entre outros significados]. Não temos apenas um apelido, mas uma ação que define quem é o protagonista e como ele se relaciona com o mundo. Randy é este verbo, ele não sabe ser qualquer outra coisa que não aquele que bate de frente com a vida, e esta ação o aprisiona.
Fica claro que Randy não saberia e teme ser algo diferente, viver de outra forma. Este aspecto de aprisionamento e inadequação permeia todas as situações e cenários. Os planos, mesmo os mais fechados, são áridos e vazios. Compartilhamos com o personagem angústia e desolação, e a sensação é perturbadoramente claustrofóbica. Perturbador também é perceber o descompasso entre ele e a stripper Cassidy, a única pessoa que parece significar para Randy uma possibilidade de mudança. Randy conjuga seu verbo, seu único verbo, sempre no pretérito [ele até acredita sinceramente que Guns n’ Roses é uma grande banda, nada mais anos 80], enquanto a personagem de Marisa Tomei está voltada para um futuro, mesmo que idealizado. É um encontro impossível, e a consequência maior é a dor. Randy busca a dor física e a mutilação como quem satisfaz a um vício. Há então o impulso auto-destrutivo e a fuga, afinal a dor física pode ser preferível frente às dores do mundo; mas vejo também uma busca por sentir-se vivo, uma maneira de preencher o vazio de uma vida que não é, já que está circunscrita ao passado.
Fico pensando que o protagonista teve diante de si duas opções: reinventar-se enquanto homem e encarar as dores e angústias da “vida real” [talvez envelhecer seja mesmo um contínuo processo de reinvenção], ou render-se ao “conforto” de uma identidade estática e cristalizada, ainda que isso signifique a mais completa solidão. Randy fez sua escolha e o filme terminou, e não cabe aqui nenhum juízo de valor sobre suas atitudes. Saí do cinema angustiado, pois sei que todos nós, mais cedo ou mais tarde, estaremos diante das mesmas opções; e um pouco assustado, porque sei também que não importa qual seja a nossa escolha, sempre haverá um preço a pagar, sempre haverá uma cota de dor.